Amigos de Verdade


    
John Maxwell em seu livro "The Treasure of a friend" conta uma história muito interessante, na qual por esses dias tenho sido conduzido a refletir na importância das nossas relações. Tenho pensando muito sobre essa questão de amizade. Há amigos que nos levantam, que nos ajudam, que nos ensinam, mas há aqueles também, que ao invés de nos ajudar, geram confusão, dúvida e morte na nossa vida e nos nossos sonhos.
    Haviam dois meninos, Jim e Philip, que cresceram juntos e se tornaram melhores amigos. Atravessaram a adolescência e a juventude juntos, e depois de formados na universidade decidiram se tornar marines, os fuzileiros navais norte-americanos. Numa casualidade, os dois amigos foram enviados para a Alemanha e lutaram lado a lado em uma das mais cruéis guerras que já existiu, a Segunda Guerra Mundial. 
Conta a História, que no meio do fogo cruzado, das explosões e muitas perdas, receberam ordem do tal comandante para que recuassem do campo de batalha. Enquanto corriam em fuga, Jim percebeu que Philip não estava com os que voltavam. Entrou em pânico, pois sabia que se o amigo não retornasse naqueles poucos minutos, nunca mais o veria. Então, pediu ao comandante que o deixasse voltar para buscar o amigo, mas não obteve permissão, sob a justificativa de que seria suicídio.
    Arriscando a própria vida, Jim desobedeceu à ordem do comando e voltou ao encontro do amigo. Com o coração quase explodindo e sem fôlego, sumiu entre a fumaça gritando o nome do amigo. Poucos instantes depois, tinha o amigo ferido em seus braços, e tudo quanto conseguiu foi presenciar o ultimo suspiro de vida de Philip. Ao regressar para juntar-se aos outros soldados, o comandante estava aos berros. Dizia que aquele ato fora impensado, tolo, inconsequente e inútil. " Seu amigo estava morto, e não havia nada que você pudesse fazer." " O Senhor está errado", replicou Jim. " Cheguei a tempo. Antes de morrer, suas ultimas palavras foram: ' Eu sabia que você viria'". 

    Essa pequena historia falou muito comigo, e me fez refletir no valor que damos as pessoas que estão ao nosso redor. Vivemos um tempo, onde as pessoas são valorizadas por aquilo que tem, e não por aquilo que são. Há tanta tecnologia ao nosso redor, com promessas advindas da Revolução Industrial, de facilidade de vida. Nos acostumamos tanto a falar com secretárias eletrônicas que nos esquecemos o que é uma boa conversa real e verdadeira com um amigo. Essa era tecnológica se baseia em eficiência e funcionalidade. Levamos essa cobrança de eficiência e funcionalidade para os nossos relacionamentos, familiares, emocionais e de até o de uma simples amizade. Tudo ao nosso redor aos poucos vai se tornando máquina. Inclusive eu e você. Há tanto trabalho, não é mesmo? Porque sem dinheiro não dá pra ser feliz.
    A maneira como nos relacionamos com os objetos, transferimos para as pessoas. Organizamos nossa agenda como quem ajeita um painel de obrigatoriedades do dia, colocando as pessoas nos espaços de acesso fácil. Acionamos as pessoas quando bem desejamos ou quando delas necessitamos, assim como as máquinas que nos servem para fazer café. Pessoas que se tornam "biotecnoparafernálias", com a missão literal de funcionar para nos suprir e servir, como diz Ed René Kivitz. 
    Talvez, de tão acostumados a lidar com atendimentos eletrônicos, já não sabemos o tom de voz que usamos, com que dosagem afetiva para temperar a fala quando alguém de carne e osso nos atende. E assim tocamos a vida, Maridos usando esposas, filhos usando os pais, patrões usando funcionários, pastores usando seus rebanhos, empreendedores usando seus clientes, numa fila interminável de relacionamentos que acabam sendo mais por conveniência do que por amor. Relacionamentos utilitaristas.

    
    Com isso, perdemos a capacidade de simplesmente estar ao lado desinteressadamente, mesmo quando a única coisa se fazer, é estar ao lado. Já não admitimos momentos na vida dos amigos quando tudo que podemos fazer é estar do lado, e ouvir: " Eu sabia que você viria".
Nossa preocupação é melhorar as coisas. Ouvimos desabafos e confissões entre lágrimas e os rotulamos como se fossem problemas a resolver. Ocupamo-nos em diagnosticar, abrimos nossas maletas com frases feitas e chavões como quem saca ferramentas, os tecnobisturis que consertam as tecnopessoas que recebemos não para abraçar, mas para julgar.

Não quero mais saber de campanhas políticas, convocações para a "Obra do Senhor", atividades religiosas de frenesi expansionista. Quero a experiência de verdadeiras amizades. Pessoas que paguem o preço, qualquer que ele seja. " Não sois Máquinas, homens é que sois", Charles Chaplin.
Quero amigos. Amigos que voltem ao campo de batalha e arrisquem a vida por mim. Amigos que me tomem nos braços, ainda que seja quase tarde. Amigos que me ajudem a levantar, que me ajudem a sonhar, edificar e não a destruir.





Andy Veríssimo Blogueiro

Cristão, publicitário de profissão, teólogo e poeta nas horas vagas. Músico e ministro de louvor, amante de sorrisos, do amor, dos livros e de bacon, é claro. Desde pequeno, sempre escrevi poesias, sempre apaixonado pela escrita decidi colocar alguns desses retalhos num blog.

4 comentários:

  1. Belíssimo texto, e ótima reflexão sobre o assunto, querido!

    Você conseguiu expressar em palavras o que eu (e acho que mais algumas pessoas) pensam sobre esse assunto.

    Realmente, temos trocado o contato pessoal pelo eletrônico. Trocamos o "próximo" pelo "distante". Trocamos "irmãos que não são de sangue" por uma vasta lista de contatos para Networking...

    Tenho pensado muito sobre o assunto e, cada vez que penso nisso, adquiro mais mágoas para com a tecnologia. É horrível ter que depender de um celular, de uma rede social, de mensagens instantâneas para nos comunicar com pessoas que não colocariam a mão no fogo por nós. Sim, generalizei, mas não por acaso: ainda me pergunto se há pessoas que amem seus amigos a ponto de entregar ou arriscar sua vida por eles. Esse tenha sido - talvez - o ensinamento mais forte que aprendi com Cristo: o amor.

    Li um texto de Maurício Zágari sobre o mesmo assunto, e me inspirei ao fazer o mesmo que ele em algumas orações: pedir amigos, amigos verdadeiros. Amigos que me ajudem a viver, e que me permita ajudá-los também. A interdependência não existe para lembrarmos que somos obrigados a nos socializar, mas sim para que juntos, de mãos dadas, possamos construir e viver em um mundo agradável. E eu tenho certeza que Deus tem ouvido as minhas orações, pois ele me permitiu te conhecer e ter contato contigo, meu amigo.

    Obrigado pela reflexão!

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  2. parabéns mano, como sempre suas reflexoes nos faz pensar e refletir sobre como temos vivido... abraço

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  3. Lindo! Nossa que verdade! Fico feliz em saber que tenho poucos que teriam essa atitude, mas tenho e isso basta! Um amigo vale mais de que milhões de colegas e pessoas que nos rodeiam. Vale a pena voltar, correr risco, estar perto... Eu sabia que você viria!

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  4. Valeu gente! Eu acredito, ainda que poucos, esses amigos existem. Eu sei que posso contar com vocês!

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